Comentários Ao Estalão

Ver também:    [Estalão]    [Morfologia]

Indico aqui algumas opiniões pessoais quanto a alguns aspectos do estalão.

[Amputações]   [Tosquias]   [Altura ao garrote]   [Mosqueado]   [Castanho]

 

Amputações

Na raça são tradicionalmente cortadas as orelhas e a cauda. No canil Aradik não cortamos caudas nem orelhas. Acreditamos que o futuro do Barbado da Terceira, tal como o de outras raças tradicionalmente sujeitas a estas amputações, irá necessariamente passar pela divulgação dos animais "inteiros", pelo que procuramos contribuir hoje para o conhecimento do que amanhã deverá ser seleccionado como o ideal.

Totalmente amputado e inteiro

Ch Adágio (esquerda) e Ch Bóina de Aradik (direita), um totalmente cortado, uma inteira. O passado e o futuro?

(voltar ao topo)

 

Tosquias

Em relação à pelagem do Barbado, o estalão diz que:

Admite-se a tosquia de trabalho encurtando o pêlo uniformemente, devendo esta apresentação ser a utilizada em exposições de beleza.

Esta afirmação é um contra-senso... Numa primeira abordagem, verifica-se que começa por indicar que se "admite a tosquia de trabalho". Ora, se apenas se admite, é porque não é o preferencial. Porém, na continuação da frase, indica-se que a tosquia de trabalho deve ser usada para apresentar os cães nas exposições de beleza. Isto significa que que a tosquia de trabalho não é "admissível", mas sim "obrigatória". Em que ficamos?

Adicionalmente, desde que a raça foi reconhecida a nível provisório pelo Clube Português de Canicultura que se discute, a nível interno, que tosquia deve ser definida, que tosquia deve ser criada para apresentar a raça em exposições! Ora, nesse caso o estalão é bem claro, indicando que a tosquia é a tosquia de trabalho - no início do Verão, os cães são integralmente tosquiados, ficando com o pelo curto, e este vai depois crescendo ao longo do ano, até ao Verão seguinte. Uma vez que tosquia está definida no estalão, não é necessário andar a "inventar" arranjos nenhuns.

Efeito visual da tosquia

Impacto que a tosquia pode ter no aspecto visual de um cão, neste caso em exemplar já de si com pouco pelo - Ch Adágio. No caso de um cão com pelagem mais abundante, a diferença é  ainda mais significativa.

Virtualmente todas as raças europeias de cães de pastoreio de pêlo comprido e barbas eram tradicionalmente tosquiadas com o aproximar do Verão, na mesma altura em que o eram as ovelhas, devido à criação de nós numa pelagem não cuidada. No entanto, para participar em exposições, esse tipo de tosquia não é requerido (até porque os cães têm a sua pelagem cuidada regularmente). Ao invés, cada raça acabou por evoluir naturalmente para um cuidado com o pêlo e um "arranjo" para exposição.

Na minha opinião, obrigar o Barbado a uma tosquia específica (especialmente uma criada para o efeito), não é mais que desvirtuar os méritos próprios da raça. Adicionalmente, é uma excelente forma de camuflar problemas de qualidade de pelagem que o animal tenha - ao reduzir exageradamente o pelo dos cães, sobretudo porque isto é normalmente feito às custas da pelagem exterior, reduzindo-a ao comprimento do subpelo, põe-se um cão com um mau comprimento/textura/densidade de pelo em pé de igualdade com um com uma boa pelagem natural.  Numa raça em que a pelagem é um dos elementos marcantes para o seu aspecto geral, considero esta situação grave.

(Sobre o Adágio, da foto acima, um juiz chegou a dizer que ele era apresentado demasiado tosquiado, sendo que ele nunca foi apresentado em qualquer fase de tosquia).

(voltar ao topo)

 

Altura ao garrote

O estalão prevê como altura ao garrote 52 a 58 cm para os machos e 48 a 54 cm para as fêmeas. No entanto, dá uma margem de tolerância a estes tamanhos pois apenas são considerados defeitos (graves) alturas superiores a 60 cm ou inferiores a 48 cm, não sendo para isto especificado o sexo.

Existe actualmente uma grande controvérsia sobre os Barbados "dos Açores" e os Barbados "do Continente", em virtude de neste último lote ser comum ver em exposições exemplares no topo superior do estalão, ou mesmo superando-o.

Curioso é que a maioria destes exemplares são descendentes directos de cães nascidos nos Açores. Assim, quanto será uma procura por cães maiores, como alguns dizem, ou quanto será de, no continente, a maioria dos cães estarem a ser criados por criadores que prestam aos seus cachorros completo e adequado apoio alimentar e higieno-sanitário (desparasitações frequentes, alimentação adequada à fase para cadelas gestantes e cachorros) - ou seja, os cachorros em vez de gastarem energia a combater elementos externos, podem direccioná-la para o crescimento.

Não quer isto dizer que nos Açores não hajam bons criadores a fazer o mesmo, felizmente começam a ser mais frequentes, mais há ainda casos em que os cachorros são adquiridos aos 2 meses em que apenas viram uma desparasitação e uma vacina porque eram obrigatórias para a viagem de avião.

Sem adicionar muito mais a esta controvérsia, neste site adicionei a altura ao garrote dos meus cães que já tive oportunidade de medir. Os que têm o afixo Aradik foram criados por mim, os restantes vieram dos Açores. Podem comparar as alturas dos progenitores e da descendência e tirar as vossas ilações.

(voltar ao topo)

 

Mosqueado ou merle?

O estalão menciona a cor mosqueada como defeito desqualificativo. No entanto, segundo informações fornecidas por um dos elementos que trabalhou na sua elaboração, o que se pretende considerar desqualificativo é efectivamente o merle

, sendo que o "mosqueado" surge apenas por confusão na terminologia específica.

(voltar ao topo)

 

Castanho

O estalão refere como um defeito desqualificativo:

Pelagem: De cor castanha ou mosqueada.

Mas anteriormente diz que:

Trufa: (...) Bem pigmentada de cor negra admitindo-se o castanho nas pelagens amarelas e branco sujo.

Qual o problema? É que permitir um nariz castanho permite as pelagens castanhas "disfarçadas". Como?

Ora bem, começando pelo princípio... Há 2 tipos de pigmento que condicionam a cor da pelagem - a eumelanina (pigmento preto/castanho) e a feomelanina (pigmento amarelo/vermelho). É a mistura de apenas estes 2 tipos de pigmento, no mesmo pelo ou em pelo diferentes, e a sua distribuição em diferentes zonas do corpo que origina toda a grande variedade de cores que os cães apresentam.

O facto de a eumelanina ser preta ou castanha é controlada por um único gene, para o qual o alelo dominante determina que esta melanina será preta, e a combinação recessiva codifica para o castanho.

Ora, frequentemente, quando se pensa num cão castanho pensa-se num animal uniformemente castanho, como um Labrador chocolate. Mas sob um ponto de vista genético, essa não é a única hipótese. Dado que o gene apenas se refere à eumelanina alternar de preto para castanho, um animal pode ser castanho de diferentes formas - castanho afogueado (como alguns Dobermanns), fulvo de base castanha, etc.

Barbado fulvo de base castanha

Barbado fulvo de base castanha. Este cão participou em algumas exposições e recebeu sempre uma boa qualificação

Como saber então que o cão é efetivamente castanho? É simples, mesmo que a cor do pelo engane, ele irá sempre ter o nariz, lábios e pálpebras castanhos! Não há que enganar!

Que isto não seja confundido com o nariz despigmentado que ocorre em muitos cães "brancos" (na realidade, geneticamente amarelos ou fulvos claros):

Nariz despigmentado

Esta é uma situação que não tem necessariamente uma base genética, a descoloração não é uniforme em todo o nariz, e os lábios e as pálpebras são à mesma pretas indicando uma correcta base genética.

No Barbado existe ainda uma situação a complicar a interpretação do castanho, para quem não sabe o que está a ver. Nos cães com barbas pode ocorrer a acção de um gene distinto que leva ao aclarar da melanina (ambos os tipos). Este aclarar normalmente começa a ocorrer a partir das 6/7 semanas a alguns meses de idade. Assim, os cães cinzentos normalmente nascem pretos e os cães amarelos claros ou brancos tipicamente nascem mais escuros.

Quando acontece termos um cão castanho que aclarou, a partir de alguns meses de idade ele pode parecer tão "amarelo" como um cão com uma cor "admitida".

Cachorro castanho aclarado

Cachorro com alguns meses de idade que, tendo nascido castanho mas tendo tido a "sorte" de aclarar, para alguns "deixa" de ser castanho. Note-se no entanto o nariz, lábios e pálpebras, que indicam bem qual a sua cor real. Obteve uma boa qualificação numa Monográfica do Barbado da Terceira.

Ou seja, tem-se um estalão que por um lado proíbe uma determinada cor, por outro permite-a em determinadas situações, pois não acautela a diferença entre narizes claros por despigmentação ou por pertencerem a animais portadores de defeito desqualificativo.

Se já em condições normais é difícil eliminar um alelo recessivo de uma raça, a menos que se faça um despiste genético (mas será que interessa mesmo, uma vez que a cor não tem quaisquer problemas de saúde, etc, associados, é apenas um efeito cosmético?), quando se tem um estalão ambíguo, que tanto o proibe como o permite consoante a situação, mais difícil fica!

O que fazer então? Alguns defeitos desqualificativos são-no sempre (como  os olhos azuis), outros são-no só às vezes, consoante a "sorte" do cão (como o castanho)?

(voltar ao topo)