História do Barbado da Terceira

O Barbado da Terceira é a raça nacional de reconhecimento mais recente, tendo ocorrido em Novembro de 2004. É reconhecida apenas pelo Clube Português de Canicultura (CPC), a nível provisório, e não tem ainda reconhecimento pela Fédération Cynologique Internationale (FCI). Constitui uma população canina autóctone dos Açores, mais particularmente da ilha Terceira. A existência de um núcleo populacional canino com uma homogeneidade satisfatória levou a que, desde finais da década de 1990, tenham vindo a ser desenvolvidos alguns estudos a ela relativos. Diferentes personalidades, como o Dr. Deocliceano Pereira da Silva (médico veterinário em Angra do Heroísmo), o Dr. Artur Machado (da Universidade dos Açores), o Eng. João Baldaia (conde de Rego Botelho), o Sr. João Barata, o Sr. Dédalo Henrique Ribeiro da Silva, o Sr. Emanuel Vieira, o Dr. António José do Amaral (delegado do CPC nos Açores), estiveram envolvidas em diversos estudos sobre a raça e inclusive propostas de estalão – uma das quais chegou a ser publicada no jornal Açoriano Oriental. Com o apoio do Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, foi apresentado em 1998 um primeiro trabalho científico sobre a morfologia da raça (1), seguido por outros sobre a sua biometria e genética (2,3).

Clique aqui para ver vários exemplares da raça, representando diferentes linhas de criação

Desde 1990, o Clube Português de Canicultura, por intermédio da sua Direcção e da Comissão de Raças Portuguesas, acompanhou o trabalho que foi feito na Terceira em prol da raça, mas apenas em 2004 procedeu ao seu reconhecimento. A aceitação da raça no âmbito da canicultura portuguesa tem sido controversa. No CPC, em particular, muitos consideram que o reconhecimento foi prematuro, e, ao contrário do que foi feito com o Cão de Gado Transmontano (outra raça portuguesa, reconhecida provisoriamente em Abril de 2004), esta instituição tem dado pouco apoio à raça.

Origem da Raça

Relativamente à origem desta população, foram colocadas duas hipóteses (1). Uma refere que poderá ser descendente de cães de caça trazidos pelos povoadores de toda a Europa, em virtude da abundância de gado bravo nos Açores, apontando como exemplo a semelhança morfológica entre diversos tipos de Griffons, Barbets e outros cães para caça grossa de pelo duro e o Barbado. No entanto, para além da raridade deste tipo de cães fora das suas fronteiras nacionais, este tipo de cães tem na realidade uma considerável diferença morfológica em relação ao Barbado, e é usado para caça e não para o pastoreio, e em condições diferentes das existentes na Terceira.

A segunda hipótese é que o Barbado descenda de cães de pastor ou boieiros de média estatura e pêlo alongado, existentes um pouco por toda a Europa, à semelhança do que ocorre com o Cão da Serra de Aires. Dada a aparência morfológica e a funcionalidade desta população, esta hipótese será provavelmente a mais realista. Muito provavelmente, a raça será derivada de um stock de cães similar ao que deu origem ao Cão de Fila de S. Miguel, dada a história semelhante de povoamento das ilhas açorianas, por parte de portugueses, espanhóis, franceses, belgas, flamengos, ingleses, holandeses, etc.

HISTÓRIA RECENTE NO CONTINENTE

Desde há vários anos, têm vindo a ser realizados na ilha Terceira diversos concursos destinados a fomentar e promover a raça. No entanto, a presença do Barbado da Terceira no continente tem-se mantido discreta. Apesar de haver conhecimento que diversos exemplares foram enviados para o continente, a maioria destinou-se a cães de companhia e/ou trabalho com ganadeiros, cães sem registo (muitos dos quais trazidos ainda antes da raça ser reconhecida) e como tal “desaparecidos” da canicultura oficial e do potencial contributo que poderiam dar para a evolução da raça.

Com o gradual aumento do número de criadores no continente, e aumento da exposição na imprensa especializada, espera-se que a raça comece a ter maior visibilidade, pois é ainda bastante desconhecida por parte do público.

EXPOSIÇÕES CANINAS

A primeira vez que Barbados da Terceira participaram em eventos de morfologia canina no continente, e a primeira vez que participaram em exposições caninas contando para o campeonato nacional, foi na 3ª Exposição Canina Especializada de Raças Portuguesas do Fundão, que decorreu a 22 de Outubro de 2005 em Alpedrinha - 2 machos nascidos e residentes na Terceira - Pastor (RI71625) e Açor-B (RI71644) - e um macho com origem no solar da raça mas residente no Alentejo - Bravo (RI72307). Com um julgamento a cargo de Carla Molinari, o Pastor classificou-se como o melhor exemplar da raça.

  Julgamento de Raça na 3º ECERP Fundão - 2005

A juiz Carla Molinari durante o julgamento da raça, na 3ª ECERP do Fundão.

Os exemplares

O juiz Manuel Loureiro Borges aproveitando uma pausa nos seus julgamentos para analisar os Barbados presentes na 3ª ECERP do Fundão. Da esquerda para a direita, Bravo, Pastor e Açor-B

Desde essa data e até ao final de 2007, a participação de Barbados em exposições caninas no continente foi bastante irregular e discreta. No entanto, desde o início de 2008, exemplares da raça têm participado assiduamente nestes eventos, com brilhantes resultados e definitivamente contribuindo para projectar a imagem da raça. A 10 de Fevereiro de 2008, na 9ª Exposição Canina Especializada de Raças Portuguesas de Cascais, terminaram o seu campeonato o Adágio e a Duquesa-B (de Dédalo Henrique Ribeiro da Silva), sagrando-se assim os primeiros Campeões de Portugal da raça, a que se seguiu a Astra da Casa da Mina, a 10 de Junho de 2008. Ao longo de todo o ano de 2008, a raça foi uma presença regular nos pódios das exposições caninas, com diferentes exemplares a obterem bons resultados em finais de raças portuguesas, de grupo, de cachorros, de veteranos e de melhor exemplar da exposições. No final de 2008, a Duquesa-B classificou-se ainda como 3º Melhor Exemplar de Raças Portuguesas (no ranking de resultados obtidos em exposições ao longo de todo o ano por todos os exemplares de raças portuguesas que participaram nos eventos).

Adágio + Duquesa-B

Os primeiros Barbados da Terceira Campeões de Portugal: Adágio + Duquesa-B

Em 2010 ocorreu um marco na raça, com a autorização de alguns clubes de canicultura estrangeiros a autorizar a participação do Barbado nas suas exposições (como a raça não está reconhecida pela FCI, esta possibilidade tem de ser autorizada a nível nacional). Nesse ano e no seguinte, os nossos cães, ou animais por nós criados, participaram em várias exposições em Espanha e Gibraltar, sagrando-se os primeiros campeões desses países (Figo, Sheila, Ali-babá de Aradik, Cortiça de Aradik, Ananás de Aradik, Bóina de Aradik) e despertando bastante interesse e curiosidade por parte do público e outros canicultores.

Sheila + Figo

Os primeiros Barbados da Terceira Campeões de Espanha & Gibraltar: Sheila + Figo

2011 constituiu um novo ano de referência para a raça nas exposições em Portugal, tendo o Barbado sido frequentemente uma das raças portuguesas mais numerosas em exposições. Foi também neste ano que, a 9 de Outubro, se celebrou a primeira exposição monográfica do Barbado da Terceira!

Em 2013, dois Barbados da Terceira classificaram-se no 1º e 2º lugar dos rankings de raças portuguesas (baseados nas pontuações obtidas pelos exemplares que competem em exposições em Portugal ao longo do ano)

REFERÊNCIAS

(1) Oliveira, A. A. (1998) Estudo biométrico, funcional e histórico dos Cães Barbados da Ilha Terceira para o seu reconhecimento como raça. Relatório de estágio da licenciatura em Engenharia Zootécnica, Departamento de Ciências Agrárias, Universidade dos Açores, Angra do Heroísmo.

(2) AACCBIT (Associação Açoriana dos Criadores dos Cães Barbados da Ilha Terceira) (s/d) Cão Barbado da Ilha Terceira. Proposta de estalão. Caracterização biométrica e molecular do Cão Barbado da Ilha Terceira. Relatório não publicado.

(3) Machado, A. (2001) Estudo biométrico e caracterização genómica através de microssatélites do Cão Barbado da Terceira. In I Simpósio de Raças Caninas Portuguesas, Estação Zootécnica Nacional, Vale de Santarém.